terça-feira, 5 de junho de 2012

O Cisma da Igreja Católica Romana


O Cisma
da Igreja Católica Romana

De "A Historia da Igreja" por N. Talberg.

Traduzido pelo Presbítero Pedro Anacleto

Conteúdo:
A Igreja Catolica Romana.
A atividade missionária dos latinos. O papado e o monaquismo. A luta dos papas com os soberanos pela independência em assuntos da Igreja. A luta do papa com os soberanos. A decadência do poder papal. Tentativas de limitar o poder papal.

Separação da Igreja no Ocidente.
Causas que prepararam a separação das igrejas. Começo da separação. A separação definitiva das igrejas no século XI.

As heresias e seitas no Ocidente.
As correntes teológicas no ocidente.

Novos dogmas na Igreja de Roma. Seitas na Igreja Romana nos séculos 11-
15. A Reforma.
A desconformidade geral com a Igreja de Roma. Wickliffe. John Guss. Savanarola. Os movimentos reformadores na Alemanha. O Luteranismo. A política da igreja do catolicismo romano. A proteção dos ortodoxos da propaganda latina. As tentativas dos latinos de apoderarem-se dos lugares santos na Palestina. Novas tentativas dos papas em favor do uniatismo. Relações recíprocas do papado com os estados católicos. As correntes religiosas na Igreja de Roma. Novos Dogmas na Igreja Romana.


A Igreja Católica Romana.

A atividade missionária dos latinos.

A atividade missionária da Igreja Romana nos séculos XI-XV tomou um caráter impróprio para o cristianismo. Foi abandonado o caminho pacífico de difusão do ensinamento evangélico, por meio da pregação e o convencimento. A Igreja Romana, de boa vontade, aplicava meios violentos — fogo e espada. Não tinha reservas em enviar a seus missionários aos países donde trabalhavam os missionários ortodoxos, e afastando-os e convertendo-os a sua religião aos já batizados na ortodoxia. Assim mesmo tratavam de difundir seu ensinamento entre os ortodoxos, tratando de convertê-los à sua religião.
Com estes métodos difundiam ao cristianismo na Europa: 1) entre os eslavos bálticos; 2) entre os prussos, aos quais no século XV convertiam ao cristianismo com a força das armas — primeiro a ordem dos cavaleiros da Prússia e logo de cavaleiros alemães; 3) em Liflândia, Estlândia e Kurlândia, donde o cristianismo foi afirmado no século XII com espada e fogo pelos cavaleiros alemães e 4) na Lituânia que se converteu ao catolicismo pelo casamento do príncipe Lituano Jagelo com a princesa herdeira do trono polaco Jedwig. Os lituanos pagãos foram batizados à força e os lituanos ortodoxos, perseguidos.
Na Ásia, os católicos organizavam distintas missões, difundiam seu programa entre ortodoxos, tratavam de converterem os muçulmanos e pagãos. Entre os ortodoxos e muçulmanos não tinham êxito; entre os pagãos (mongóis na China) apesar de organizarem uma comunidade cristã no século XIII, esta desapareceu sem rastros no século XV.
No séc. XV, depois do descobrimento de novas terras no ocidente da África e logo descobrimento da América, os portugueses e espanhóis trouxeram aos países conquistados o cristianismo. Mas por seu trato cruel com os aborígenes o cristianismo ali se difundia de forma débil.

O papado e o monaquismo. A luta dos papas com os soberanos pela independência nos assuntos da Igreja.

O poder papal, incentivado em grande parte pelo Papa Nicolau I (858-867), durante o século X e na primeira metade do séc. XI, decaiu em grande medida. Isto passou, por um lado, por causa da intervenção dos governantes da Itália nos assuntos papais, e por outro lado, por causa da inércia e depravação moral dos papas e do clero.


Papa Nicolau I
Até a metade do séc. XI a disposição com o trono papal passou dos governantes da Itália às mãos do imperador germânico Enrique III (1039-56), da dinastia finlandesa, quem restabeleceu o poder imperial na Itália. Naquele tempo, por causa de ações ilegais dos papas, (um deles vendeu o papado por uma grande soma a um homem rico de Roma), surgiu um movimento que exigia a reforma do clero. Este movimento encontrou a defensores e propagadores nos monges do mosteiro francês de Cluny (na Borgonha). Os monges de Cluny pregavam o abandono de interesses leigos, e forma devida leiga do clero. Isto se referia em primeiro lugar aos papas. Enrique III apoiava o movimiento de Cluny, já que este se dirigia contra a simonia e a desordem na Igreja. Três vezes Enrique III nomeou papas. Os de Cluny também tendiam a libertar a Igreja da influência do poder civil. Um ardente defensor deste pensamento era o monje Hildebrandt, que foi nomeado cardeal pelo Papa Leão IX (1049-54) e que dirigia a todos os assuntos do papado durante 20 anos.


Papa Leão IX
No princípio, Hildebrandt, com uma ajuda política, eliminou a influência do poder imperial sobre o papado. Filho de um campesino da Toscana, primeiro capelão (confessor do papa), ele esteve um tempo em Cluny. Ao voltar a Roma e defendendo a reforma, ele ocupou uma posição eminente, sabiamente defendendo a independência do poder papal. Ante as mudanças no trono papal, depois de Leão IX ele atuava tão acertadamente, que a eleição se produziu sem intervenção da corte imperial, como por casualidade e não com premeditação. É verdade, que naquele momento o imperador era um menino de poucos anos, Henrique IV (1056-1106). Pela sugestão de Hildebrandt, o papa nomeado por ele, Nicolau I, já abertamente decidiu eliminar a influência imperial sobre a eleição papal.


Henrique IV
Em 1059 no Concílio de Latrão se decidiu que a eleição papal pertence ao colégio dos cardeais, ou seja; bispos da região romana, sacerdotes dos templos principais de Roma e alguns diáconos do templo da catedral do papa. O resto do clero e o povo só deviam expressar seu acordo. Ao que se refere ao imperador, ele podia confirmar a eleição, já que este direito o foi outorgado pelo trono apostólico. A aristocracia romana estava disconforme por sua situação secundária. Ela pedia a Enrique IV aproveitar seu direito de nomear papas, tal como o fazia seu pai. Mas Hildebrandt elevou ao trono a seu candidato Alexandre II (1061-73). Depois da morte deste, Hildebrandt decidiu ocupar o trono ele mesmo e foi eleito pelos cardeais sob o nome de Gregório VII (1073-85). O imperador recebeu uma simples notificação sobre a eleição.

Gregório VII subiu ao trono papal compenetrado por aquelas idéias de poder absoluto papal, que maduraram desde muito tempo e agora se manifestaram como um sistema completo. Tomando, como próprio, o ponto de vista da igreja Romana, que o papa é o representante de Cristo na terra, Gregório quis fundar sob o poder papal uma monarquia teocrática universal. Segundo seu entender, o papa deve ter poder não só sobre o clero, senão também sobre os governantes civis. Todo poder, não excluindo o imperial, ele considerava abaixo do papal. Tudo recebe sua consagração e a autoridade do papa. Em caso de abusos da parte dos poderes, tanto eclesiásticos, como civis, o papa tinha direito de privá-los de seus privilégios, vinculados com o cargo, e outorgar a estes privilégios a algum outro, segundo seu juízo. Segundo o pensamento de Gregório, o papa tem o poder de outorgar cátedras e coroas reais e imperiais. Antes de começar a ter estas idéias, Gregório necessitava eliminar definitivamente a influência do poder civil sobre os assuntos da Igreja. Da pressão do poder imperial na eleição do papa, seu trono já se libertou antes, mas ficou todavia a "investidura", ou, o direito dos poderes civis de repartir os cargos eclesiásticos. Por isso Gregório se ocupou em seguida de destruir a "investidura." Em 1075 ele passou no Concílio a proibição da investidura. Decidiu destituir aos membros do clero, que receberam seus cargos através da investidura, e aos governantes civis, que praticavam a investidura — excomungar. Neste mesmo concílio se proibiu aos sacerdotes casarem-se. Segundo a opinião de Gregório, o celibato do clero privava a estes de vínculos familiares e com o mundo que os rodeava; e devia transformá-los em mais zelosos servidores da Igreja. A luta contra a investidura rompia a dependência feudal das terras da Igreja — bispo, abade e sacerdote deviam ser pastores da igreja e não vassalos do rei ou do príncipe.

O mesmo clero tomou com má vontade a reforma espiritual. Foi tomada uma particular e severa decisão sobre o celibato do clero. Alguns membros se rebelavam contra os legados papais. Da pior maneira foi tomada a ordem papal na Alemanha. Os legados papais se apresentaram ao imperador Henrique IV e o apresentaram o referente à investidura. Henrique, que naquele momento ia à guerra, aceitou cumprir a exigência papal, mas ao voltar da guerra, seguia usando a investidura. Então, — em 1076 — o papa o chamou a Roma para julgá-lo. O imperador com provocações despediu aos enviados papais e reuniu em Worms o Concílio de bispos germânicos. O Concílio, cumprindo o desejo do Imperador, decidiu que não se deve obedecer ao Papa Gregório, já que ele trata de escravizar a igreja e tira o poder dos bispos. Henrique proclamou que o papa esta abolindo a ordem social, baseado nos princípios santificados pela Graça Divina; — o poder do soberano e o sacerdócio. O papa, que mesclou a estes dois princípios, deve ir se e deixar lugar a alguém mais digno.

Mas a Gregório não se pode assustar, nem tirar de seu caminho. O papa excomungou a Henrique e aos bispos que participaram do Concílio. Henrique IV o proclamou isento de dignidade real e libertou-se do juramento de fidelidade a seus súditos. Aos próprios germanos os indicou elegerem a um novo rei. As diretivas do papa não teriam importância se Henrique não tivesse levantado contra si aos principais germânicos com suas ações anteriores. Os aliados do papa reagiram com os mesmos feudais de cuja influencia ele tratava de limpar à Igreja. Os duques do sul da Alemanha começaram a guerra contra Henrique. Se iniciou um levantamento na dissidente Saxônia. O alto clero, que acabava de declarar-se contra o papa, foi confundido por sua decisão, e pelo fato que os estados populares mais baixos estavam de acordo com a reforma da Igreja e se levantavam contra os inimigos do papa. Os príncipes se reuniram em Tribur e decidiram que se durante o ano Henrique não pedissem o perdão papal, seria privado do trono. Henrique vacilou.
No inverno de 1077 ele foi, com uma pequena comitiva à Itália. O papa se encontrava neste tempo em Canossa, no castelo de sua fiel aconselhada, a marquesa de Toscana, Matilde. Quando Henrique chegou, não foi recebido no castelo. Ele enviou embaixadores ao papa Gregório, a quem encarregou de expressar em seu nome seu arrependimento, aceitar as exigências papais e conseguir o levantamento da excomunhão. O papa obrigou a Henrique esperar três dias para sua decisão, fora das muralhas do castelo, vestido de penitente, descalço e fazendo um completo jejum, o papa o perdoou com a condição que sua causa seja discutida pelos príncipes alemães em uma reunião.

Mas a humilhação, que sofreu Henrique não trouxe frutos esperados. Os príncipes alemães, não só não baixaram suas armas, senão elegeram rei a Rodolfo de Suábia, que começou a guerra contra Henrique. O papa reconheceu como rei a Rodolfo e excomungou de novo a Henrique (1080). Henrique esforçou-se, sem êxito, atrair a numerosos aliados. Parte do alto clero passou a seu lado, temendo que com a abolição da investidura, caíssem em uma total dependência dos papas. Entre o baixo clero, a Henrique apoiavam os sacerdotes casados. Ele atraiu para seu lado aos cavaleiros menores e aos habitantes das cidades grandes, que se enriqueciam e tratavam de libertarem-se da pressão dos senhores.

Rodolfo de Suabia

O papa, ao excomungar ao imperador, declarou que os Apóstolos, ao receberem de Cristo o direito de atarem e desatarem aos homens, por isso mesmo, estão postos tanto sobre a igreja, como sobre o mundo. Se o herdeiro dos Apóstolos pode dispor dos cargos eclesiásticos, tanto mais, tem poder sobre reinos e principados. Henrique não se rendeu. Reunindo aos bispos fiéis a ele nos Concílios de Meinz e Bricsen (1080), repetiu a destituição do Papa Gregório e elegeu a um novo papa, Clemente III.


Clemente III
Em uma das batalhas foi morto Rodolfo de Suábia e Henrique IV afirmou seu poder na Alemanha. Então ele decidiu terminar com Gregório. Em 1084 ele tomou Roma, elevou ao trono papal a Clemente III e recebeu de suas mãos a coroa imperial. O papa Gregório se trancou no castelo do Santo Anjo e decisivamente se negava a falar com Henrique. Para ajudar ao papa chegaram os normandos, que desde este tempo ocuparam já o Sul da Itália. Seu duque Roberto Guiscardo reuniu um grande exército, ao qual havia também sarracenos. Henrique teve que abandonar a Itália, donde Roma foi tomada por Guiscardo. Os normandos e sarracenos cruelmente saqueavam a cidade diante os olhos do papa. Os habitantes de Roma, naturalmente, estavam furiosos contra os aliados do papa. Gregório VII compreendeu a dificuldade de sua situação e se retirou para o sul em Salerno, onde morreu em 1085, dizendo a seus amigos antes de sua morte: "Toda minha vida amei a verdade e odiei a injustiça, por isso morro no exílio." Ele é santo canonizado pela Igreja Romana.


Castelo de Santo Anjo


Roberto Guiscardo

O Papa Vitor III (1086-87), Urbano II (1088-99) e Pascoal II (1099-1118), que dirigiram a Igreja Romana depois de Gregório, foram seus discípulos e trataram de realizar seus planos. Por isso a luta dos imperadores pela investidura seguia. Os papas exigiam a abolição da investidura, excomungavam aos imperadores e formavam alianças políticas contra isto. Henrique IV e seu filho Henrique V vinham com seus exércitos à Itália, cercaram os papas de Roma e restituíram ao antipapa Clemente III. De forma particularmente decidida lutava com o imperador Henrique IV o Papa Urbano II, ele até logrou em 1092 a convencer contra Henrique a seu filho Conrado, que logo, 8 anos governou a Lombardia e Toscana. Urbano II, com sua pregação da cruzada em Piacenza e Clermont (na França), despertou um fervor fanático nas massas populares e aproveitou isto para seus fins. Em 1096, os cruzados que partiram pela Itália, o ajudaram tirar de Roma a Clemente e apaziguar a nobreza romana, que estava em parte com o imperador. Urbano II ocupou o trono papal de Roma. Pascoal II, que seguia a Urbano, conseguiu tirar completamente o antipapa Clemente da região Romana, que este mesmo ano morreu. Henrique IV não pode fazer nada com Urbano II. A defesa do papa constituíam as terras da condessa Matilde, que cercava Roma desde o norte e a ajuda dos normandos no sul da Itália. Na velhice Henrique IV teve que lutar com seu filho Henrique V. Em 1106 seus exércitos se encontraram sobre o Reno. Henrique IV súbitamente morreu. O filho contra o pai foi convencido pelo papa Pascoal II, que o escrevia cartas lisonjeiras com o pedido de "ajudar à Igreja de Deus."


Papa Vitor III


Papa Urbano II


Papa Pascoal II


Henrique V

Henrique V primeiro seguiu os passos do pai. A condessa Matilde morreu, deixando suas enormes posses para o trono de Roma. Henrique V não queria permitir um tal aumento de posses civis do papa e continuava afirmando o direito do imperador para outorgar a investidura ao clero superior dos reinos germânico e italiano. Apesar de ocupar Roma, sua pouca segurança na Alemanha, de novo, fez um grande serviço ao papado.. Ambas as partes estavam cansadas da luta. Com o Papa Calisto II (1118-24), na reunião de Worms, se firmou um acordo vantajoso para o papa com o imperador Henrique V e príncipes alemães. Em 1122, com base nesse pacto, o papa, como pessoa eclesiástica, deixava a investidura dos bispos e abades, segundo as leis da Igreja, com a outorgação do anel e do cajado. Ao imperador, como pessoa cívica,  foi deixada a investidura cívica, ou seja, dar aos mesmos bispos e abades direitos de príncipes, possessões, etc. e tomarem o juramento feudal. Por um tempo cessaram as discussões e desordens, que separavam ao mundo cristão ocidental.

A luta do papa com os soberanos.

Tratando de realizar os planos teocráticos do Papa Gregório VII, os papas subseqüentes lutaram com os soberanos pelo domínio da Igreja sobre o estado. Assim, Inácio II (1130-43) começou a declarar que os imperadores recebem sua investidura, como feudo do papa. O mesmo declarou o Papa Adriano IV (1154-59) em sua carta ao imperador Federico I o Barba-roxa (1152-90) da casa de Gogenstaufen.


Federico I o Barba-roxa

Sobre esta questão começou a luta dos papas com os Gogenstaufen, que durou quase um século. Federico o Barba-roxa veio à Itália desejando limitar as pretensões do Papa Adriano IV. Chamou a uma reunião na qual demonstrava que o imperador deve submeter-se aos bispos e os mesmos aos papas. Quando usam o poder civil, não é pelo direito divino, senão pela disposição dos reis, que hes deram o poder.


Papa Adriano IV
Durante a eleição do sucessor de Adriano, as opiniões dos cardeais se dividiram. Uns elegeram a Alexandre III (1159-81), inimigo do imperador, outros, a Vítor IV (1159-64), seu amigo. Federico aproveitou esta circunstância para submeter os papas à sua influência. Ele convocou o concílio e exigiu que ambos os papas viessem para a discussão. Alexandre não veio ao concílio e excomungou a Vítor e Federico. O imperador, então, tirou de Roma a Alexandre em 1167 e elevou ao trono a um novo papa, Pascoal. Alexandre, apoiado pelas cidades da Lombardia, não se rendia. Quando os assuntos de Federico na Itália não eram convenientes, ele em 1177, se reconciliou com Alexandre, com condições vantajosas para o papa.


Alexandre III
Os sucessores do Papa Alexandre não eram tão fortes para oporem-se a Federico o Barba-roxa e a seu sucessor Henrique VI (1191). O último, por meio de casamento com Constança, única herdeira da coroa da Sicília, anexou a suas posses ao reino normando da Sicília e se transformou em soberano de toda Itália. Os papas foram muito limitados, até na mesma Roma, onde governava o prefeito imperial.


Henrique VI
Com a morte de Henrique VI em 1197, que deixou um filho de poucos anos, Federico, a situação mudou. A governadora da Sicília foi Constança, e na Alemanha os príncipes decidiram eleger um novo imperador. Sobre o trono papal subiu Inocêncio III (1198-1216), um dos mais destacados políticos de seu tempo. Ele colocou como meta realizar em toda plenitude os planos teocráticos de Gregório VII e teve tempo de colocar o papado a tal altura, a que antes nem depois esteve. Depois de sua entronização, ele obrigou jurar a si o prefeito de Roma, nomeado pelo imperador e com isto destruiu o poder imperial sobre Roma. Fazendo o mesmo em outras cidades da região da Igreja, Inocêncio formou um estado papal independente. Sublevando as cidades restantes da Itália, contra o poder imperial e assegurando seu apoio, o papa se ocupou da Sicília. Uma vantagem para ele foi que Constança pediu a Inocêncio de reafirmá-la e a seu filho Frederico, a posse da Sicília, como feudo do trono papal.

Antes de sua morte (1198), Constança deixou ao papa o cuidado de seu filho. Inocêncio gobernava na Sicília. Na Alemanha nesse tempo seguia a luta pelo trono imperial e ambos pretendentes se dirigiram ao papa para ajuda. Inocêncio pôs a coroa sobre Otão da Saxônia. Havendo-a recebido em Roma, Otão não cumpriu sua promessa de proteger a todos os direitos do papa e ampliar suas posses na Itália. Ele declarou a muitas das posses papais, feudos imperiais e atacou Sicília. Então Inocêncio excomungou Otão (1210) e o declarou privado da honra imperial. O papa propôs aos príncipes germânicos elegerem como imperador o seu educado Federico II, que se fez imperador.


Federico II

Inocêncio III mostrou também seu poder na França, Portugal e Inglaterra. Nesta última ele teve que sustentar a luta com o rei inglês João Sem Terra. O rei não quis em 1217 receber o Cardeal Estevão Laugton, nomeado pelo papa, arcebispo de Canterbury, como resultado desta luta o papa excomungou em 1209 a João e logo o privou do trono em 1212. O povo não amava o rei por sua crueldade. Na Inglaterra começaram os levantamentos. João se humilhou, recebeu a Laugton e reconheceu ser o vassalo do papa, com a obrigação de pagar-lhe o tributo.


João Sem Terra
Durante o reinado de Inocêncio se formou o Império latino, e seu poder e sua influência se estendeu sobre uma importante porção do Oriente. Seu brilhante reinado, Inocêncio terminou com o Quarto Concílio de Latrão (1215) ao qual além de numerosos bispos, abades, priores, estavam presentes muitos soberanos da Europa Ocidental.

Depois da morte de Inocêncio, o poder imperial de novo prevaleceu sobre o poder papal. Federico II começou paulatinamente a restabelecer seu poder na Itália. Ele não separava, tal como o queria Inocêncio, a coroa de Sicília da Alemanha. O segundo sucessor de Inocêncio, Papa Gregório IX (1227-42), tratou de tirar Federico da Itália e exigia o cumprimento da promessa da cruzada. Federico se dirigiu à Palestina, mas logo voltou já que em seu exército começaram as enfermidades. O papa o excomungou por desobediência. Federico, não tomando isso em conta, sem a permissão do papa, em 1228 fez a quinta cruzada, por um tempo tirou de Jerusalém os turcos, e se coroou com a coroa de Jerusalém, como conseqüência de seu matrimônio com Yolanda, herdeira do trono de Jerusalém. Depois de sua volta em 1228, Federico temporariamente reconcilio-se com o papa, desconforme com seu êxito e sua volta. Logo entre eles começou uma terrível inimizade. Federico começou a tirar as posses papais. Gregório IX em 1239 o excomungou de novo. Federico mandou uma carta a príncipes e cardeais, na qual chamava a Gregório inimigo de todos os soberanos e prometia logo liberar a todos da tirania papal. Como resultado, o papa mandou a todos uma carta, donde chamava a Federico não crente. O imperador chegou até Roma em 1240. O papa chamou um concílio em 1241, contando com os bispos franceses, que não dependiam de Federico, este, por sua vez, tomou prisioneiros aos bispos que vinham da França. Ocupada Roma, ele fez o papa prisioneiro, que não agüentou a prisão e morreu em 1241.

Seu sucessor Clemente IV viveu só três semanas depois de sua eleição. Dois anos o trono papal caiu vacante, devido a diferenças entre os cardeais. Em 1243 foi eleito Inocêncio IV (1243-54), que continuou a luta contra Federico. O papa, retirando-se em Lion, reuniu ali um Concílio em 1245, anatematizou nele a Federico como herege e blasfemo, e o declarou privado do trono, propondo aos germanos e sicilianos elegerem um novo soberano. Sem terminar a luta contra Inocêncio IV, Federico II morreu em 1250. Inocêncio, ao inteirar-se, com deleite declarou a todo o mundo a notícia de sua morte, como um acontecimento grato para o céu e a terra.


Clemente IV
Os filhos de Federico, Conrado IV e Manfredo se ocuparam de afirmar o poder imperial, o primeiro na Alemanha, o segundo em Nápoles e Sicília. Conrado em pouco tempo morreu, deixando um filho Conradino. Como Inocêncio, assim seus sucessores, seguiam lutando com os Gogenstaufen. Para tirá-los de Nápoles e Sicilia os papas os opuseram a um príncipe francês Carlos de Anjou, que por seu convite veio à Itália com cruzados. Nesta luta Manfredo foi morto e Conradino feito prisioneiro e julgado por Carlos em Nápoles (1268), não sem conhecimento do Papa Clemente IV (1265-68).


Conrado IV


Conradino


Carlos d'Anjou

A decadência do poder papal.

Depois de centúrias da luta teimosa com a casa inimiga de Gogenstaufen, o papado obteve uma vitória completa. Mas esta vitória significou o princípio da queda do mesmo papado. Carlos de Anjou, que devia seu poder sobre Nápoles e Sicília aos papas, tratava agora de ocupar na Itália a mesma posição que ocupavam os imperadores alemães. Os papas tiveram que fazer grandes esforços para debilitar seu poder. O Papa Nicolau III (1277-80) fez alianças com imperadores germânicos e bizantinos e antes de sua morte preparou um levantamento em Sicília, conhecido como "tarde Siciliana." Apesar disto, Carlos teve tempo de conseguir tal influência na Itália, que em 1281, obrigou a eleger um papa adepto a ele, Martinho IV (1281-85).


Papa Nicolau III


Papa Martinho IV

Mas muito mais perigoso para o papado foi seu outro inimigo, o rei da França Felipe o Formoso (1285-1315). Ele reprovou o direito adquirido dos papas de intrometerem em assuntos civis de outro estado. Ele deu o primeiro golpe cruel ao Papa Bonifácio VIII (1294-1303). Felipe levava adiante uma guerra com a Inglaterra. O papa propôs sua mediação, o que Felipe rejeitou não desejando a intervenção papal. O papa se enojou quando soube que Felipe, para cobrir os gastos bélicos instituiu uns impostos ao clero francês. Em 1296 o papa editou uma bula, na qual (sem nomear a Felipe) ameaçava com a excomunhão aos leigos que impõe impostos sobre o clero e ao clero, que paga-os. O rei respondeu a isso com a proibição de exportar da França os metais preciosos. A conseqüência disso o papa perdia seus bens na França e por isso cedeu. Ao clero não foi proibido fazer doações voluntárias para as necessidades do Estado. Produziu-se a reconciliação e Felipe até aceitou a proposta do papa de servir de mediador nas conversações com o rei inglês. Mas logo se viu que o papa, no papel de mediador apoiava o rei da Inglaterra. A inimizade aumentou e a luta de Felipe com Bonifácio se aumentou enormemente. Em 1301 o legado papal, um bispo francês, falou com o rei em forma tão atrevida, que aquele o prendeu, não tomando em conta a exigência do papa de levar este assunto a seu juízo. O papa, enojado, escreveu ao rei: "Teme a Deus e guarde Seus mandamentos. Desejamos que saibas que em assuntos espirituais e temporais dependes de nós... Aos que pensam diferente os consideramos hereges." Em outra carta ele propunha a Felipe com o clero francês virem a Roma ou enviarem aos apoderados para explicações destes assuntos. Felipe queimou ambas as cartas e respondeu ao papa assim: "Que saiba tua enorme estupidez que em assuntos temporais não dependemos de nada... Aos que pensam diferente consideramos insensatos." Felipe chamou em 1302, membros de todas as classes sociais, que se expressaram como o rei contra o papa, e declararam solenemente, que o rei recebeu sua corona de Deus e não do papa. Com isto concordou também o clero francês. Bonifácio respondeu a isto com um concílio em Roma, que condenou as ações dos franceses e com a bula "Unam Sanctam" (as primeiras palavras da bula) desenvolveram o sistema de Gregório VII. Ela diz: "Cristo deu à Igreja duas espadas, símbolo dos dois poderes — espiritual e civil. Ambos os poderes estão instituídos em proveito da Igreja. O poder espiritual se encontra nas mãos do papa, em troca, o civil — nas mãos dos reis. O poder espiritual é mais alto que o civil, como a alma é mais alta que o corpo. Por isso, como o corpo está submetido à alma, assim o poder civil deve estar submetido ao poder espiritual. Só com esta condição o poder civil pode ser útil à igreja. No caso de mau uso do poder civil, este deve ser julgado pelo poder espiritual. O poder espiritual não pode ser julgado por ninguém. Separar o poder civil do espiritual é considerá-lo independente, significa introduzir uma heresia dualística — maniquéia. Em troca, reconhecer no papa toda a plenitude do poder espiritual e civil, significa reconhecer um necessário dogma da fé.


Papa Bonifácio VIII

A esta bula, Felipe respondeu com uma nova reunião dos representantes de estados, na qual um jurista, Guilherme Nogaret acusou o papa de vários delitos e propôs dar ao rei poder para prender o papa para julgá-lo. Bonifácio não aguentou mais, ele anatematizou a Felipe, impôs injunção sobre a França e excomungou a todo o clero francês. Felipe fez uma terceira reunião. Ali seus hábeis juristas acusaram a Bonifácio de simonia e outros crimes, que nunca existiram, como por ex., bruxaria. Como conseqüência decidiu chamar um Concílio Universal em Lion para o julgamento do papa e absolvição do rei. A Guilherme Nogaret foi encomendado prender a Bonifacio e trazê-lo ao Concílio. Nogaret foi a Itália, acompanhado de outro inimigo do papa, o cardeal da família de Colonna, que foi expulso por Bonifácio quando começou seu papado. Os enviados encontraram o papa na cidade de Anania. Para neutralizar os seus inimigos, ele os recebeu sentado no trono com todas as vestimentas papais. Mas eles não tomaram isto em conta, o prenderam em sua própria casa e o trataram tão brutal e cruelmente, que ele, uma vez liberado, depois de três meses, pelos habitantes de Anania, quando voltou a Roma, perdeu o juízo e logo morreu (1303).


Guilherme Nogaret

O sucessor de Bonifácio, Bento XI, tinha consciência, que seu predecessor atuava com demasiada força, e tratou de reconciliar-se com a França, mas depois de oito meses morreu (1304). Na eleição do novo papa, os cardeais se dividiram — os que defendiam os interesses da França, desejavam ver no trono a um francês; os viciados em interesses do papado de Bonifácio, — a um italiano. O partido francês ganhou. Foi eleito papa o arcebispo de Bordeau — Bertran, que tomou o nome de Clemente V (1305-14). Felipe o Formoso, que tinha influência sobre a eleição, fez jurar o novo papa de anular todas as diretivas de Bonifácio sobre ele, condenar a Bonifácio e dissolver a Ordem dos Templários. Temendo encontrar inconvenientes em Roma por sua amisade com a França, Clemente decidiu ficar para sempre na França. Chamou alí aos cardeais em 1309 e fixou sua residência em Avignon. Alo os papas ficaram até 1377 e esta permanência de quase 70 anos em Avignon se conhece na história como "cativeiro de Avignon dos papas." Os papas de Avignon, começando por Clemente V, caíram em uma total dependência dos reis da França e atuavam sob sua influência. Ao mesmo tempo, levavam uma vida indigna dos sumo pontífices, com a qual debilitavam ainda mais sua influência. Com tudo isso, os papas de Avignon tendiam a julgar e tinham o papel de soberanos universais, mas não da França, ao menos de outros estados. Mas não tinham êxito. A consciência da independência, do poder civil, do poder espiritual, já tinha madurado em todas as partes. Depois da França, protestou a Alemanha contra as pretensões papais. Em vão, os papas enviavam ali as injunções e excomunhões — ninguém os tomava em conta. Em 1338 o imperador germânico, Luis da Bavária, duques e príncipes decidiram, em um ato solene, manifestarem a independência do poder civil do espiritual. Declarando que as pretenções papais sobre o manejo da coroa imperial, está fora da lei. Eles decidiram no futuro na eleição do imperador, de passarem por cima da ratificação papal. O mesmo foi declarado na "bula de ouro" de Carlos V (1356). A Inglaterra, que se encontrava desde João Sem Terra, em plena dependência dos papas, também se libertou de sua influência. No reinado de Eduardo III (1327-77), cessou o imposto feudal aos papas e aboliu o apelo à Roma. Na Itália, o poder papal decaiu notoriamente. Só na região da Igreja, se considerava o papa um formal soberano, mas na realidade, nem ele, nem seus legados não tinham nenhuma influência sobre o governo. Os defensores do papado tinham a total abolição do poder papal na Itália, se os papas ficariam em Avignon, e por isso os convidavam a voltarem a Roma. Isto o entendiam também os mesmos papas. Gregório XI (1370-78), procurando um exército mercenário, para voltar à região da Igreja, levou, por fim, sua residência a Roma. (1377). Ali ele morreu em 1378. Com a morte de Gregório XI, na Igreja de Roma começou o que se chama: o grande cisma. Na cúria papal, a maioria dos cardeais eram franceses, chegados de Avignon. Eles insistiam na eleição de um papa francês, mas o povo de Roma exigia que o papa fosse romano. Foi eleito por fim um italiano Urbano VI (1379-89), homem de caráter forte e cruel. O novo papa começou seu reinado com a correção dos costumes do clero e até tocou nos cardeais. Ofendidos com isto, os cardeais franceses, levaram as joias papais, deixaram Roma, declararam ilegal a eleição de Urbano e elegeram seu papa Clemente VII (1379-94), que logo se colocou em Avignon. A Clemente reconheceu a França, Nápoles e Espanha. A Urbano — os estados restantes. De maneira que na Igreja de Roma apareceu um duplo poder.


Papa Bento XI


Papa Clemente V


Carlos V


Eduardo III


Papa Gregório XI


Papa Urbano VI


Papa Clemente VII

Tentativas de limitar o poder papal.

Com a aparição do grande cisma o mundo ocidental, acostumado a ver no papa a única cabeça da Igreja, houve um sentimento de confusão. Os papas, tanto os romanos como os de Avignon, aumentavam todavia mais a confusão com suas intrigas, anátemas recíprocos e vida licenciosa. A disciplina da Igreja caiu. Aumentaram os abusos, parcialmente a simônia. Fé na necessidade de uma cabeça visível da igreja surgiu no ocidente. Começaram as declarações contra a supremacia do papa na igreja. Se expressavam os pensamentos que o Concílio Universal é mais alto que o papa e pode julgá-lo , e que só por meio do Concílio Universal se pode terminar o cisma e os abusos na Igreja. Depois de certas consultas, os estados ocidentais convieram a tomar medidas sérias para terminar com o cisma. Em 1397 na reunião de Frankfurt os representantes dos estados decidiram convidar a abdicar a ambos os papas. Mas não houve acordo. Então os cardeais romanos e franceses, irritados pelo comportamento de seus papas concordaram em convocarem um Concílio. O Concílio em nome de ambos os grupos se reuniu em 1409 em Pisa. Ao mesmo tempo os papas chamaram a seus Concílios, nos quais negavam a legitimidade do Concílio de Pisa.

No Concílio de Pisa, além dos cardeais, bispos e abades, estavam presentes muitos mestres de teologia e direito canônico. França e Inglaterra enviaram seus representantes. Mas o Concílio, que tratava de por fim a duplo poder, não chegou a esta meta pelos erros cometidos. O Concílio decidiu, que os papas podem serem julgados por ele e exigiu a presença de ambos para seu juízo. Quando nenhum dos dois apareceu, o Concílio os declarou destituídos. Logo se levantou a questão das reformas na igreja em sua cabeça e membros. Mas os cardeais trataram de convencer o Concílio de elegir um novo papa antes destas reformas e sob sua direção fazer as reformas. Foi eleito papa, Alexandre V. Nisto radicava o principal erro. Alexandre, sob o pretexto, que para as reformas são necessários uns trabalhos prévios, dissolveu o Concílio com a promessa de reuní-lo outra vez em três anos. Em suma — a igreja romana, em lugar de dois papas, teve três. Cada um deles considerava a si mesmo legal e estava reconhecido por tal ou qual estado. Alexandre V morreu em 1410. Dizem, que foi envenenado pelo Cardeal Baltazar Cossa, que ocupou depois o trono com o nome de João XIII.


Papa Alexandre III


Cardeal Baltazar Cossa

Este papa, depois de reiteradas exigências de todas as partes e particularmente do imperador alemão Segismundo, esteve de acordo em chamar um Concílio Universal, que sessionou desde novembro de 1414 até maio de 1418 em Constanza.


Imperador Segismundo

De fato governavam os três papas: em Roma Gregório XII (desde 1406), reconhecido pela Itália média e ao Sul; em Avignon Bento XIII (desde 1394), reconhecido pela França e Espanha; e em Bolonha, João XXIII, reconhecido pela Itália ao Norte, Suíça e Alemanha. O Concílio Universal não encontrou outro meio que fosse destituir aos três papas e eleger (11 de novembro de 1417) a Martinho V, que encerrou o Concílio com a promessa de chamar a um novo em 5 anos. Os representantes dos estados lograram obrigar o papa a formar acordos separados com cada estado sobre supressão de algumas falhas da Igreja. Martinho convenceu o Concílio de adiar as reformas principais até o novo Concílio. Este foi encerrado em 1419. Durante o governo de Martinho morreram os papas restantes e terminou o cisma. Das reformas ele não se ocupava. Só chamou ao concílio em Basel em 1431 e neste mesmo ano morreu.


Papa Gregório XII


Papa Bento XIII


Papa João XXIII


Papa Martinho V

O sucessor de Martinho, Eugênio IV (1431-47) teve que abrir o concílio de Basel, já que os convidados por Martinho já chegaram a Basel em 1431. O novo papa enviou ali a seu cardeal, que abriu as sessões. Eugênio calculava que o concílio iria trabalhar completamente segundo suas indicações. Mas não resultou assim. O Concílio de Basel, em seguida e justamente sobre o assunto de Gussitas, declarou que atuará independentemente. Em consequência o papa declarou o concílio encerrado. Mas os padres de Basel não aceitaram. Sustentando a situação anterior, que o Concilio Universal é superior ao papa, eles exigiram a presença de Eugênio para julgá-lo e em caso de negação ameaçaram com sua destituição. Depois de alguma luta, o papa, obrigado pelas circunstâncias, em 1433, teve que anular sua diretiva de encerramento do Concílio. Mas a paz foi de curta duração. O Concílio de Basel iniciou as reformas da Igreja e, antes de tudo, se declarou contra o poder ilimitado do papa. Eugênio, naturalmente, não pode estar de acordo com isto. Começou a polêmica. Os padres do Concílio sustentavam que o Concílio é superior ao papa e por isto ele tem que obedecer ao Concílio. Em troca, o papa dizia que o Concílio depende completamente do papa e suas decisões recebem a força de lei, quando estão endossadas pelo papa. Para terminar com as tendências reformadoras do Concílio de Basel, Eugênio em 1437 decidiu trasladá-lo à Itália. Neste mesmo tempo havia negociações entre o papa e o governo grego para fazer um concílio e discutir a questão de unificação das igrejas. Eugênio sustentou que este concílio deve reunir-se na Itália e propôs aos de Basel mudarem-se também dali. Os de Basel se negaram.


Papa Eugênio IV

Eugenio apesar disso, declarou, em 1438, o Concílio de Basel encerrado e fixou um novo em Ferrara, que logo passou a Florênça. Apesar de tudo isto, o concílio de Basel continuava com suas sessões e imediatamente depois da abertura do concílio em Ferrara, declarou a Eugênio destituído. Eugênio, por isso, excomulgou a todos os padres de Basel. Depois disto o concílio de Basel começou a esgotar; muitos dos bispos o deixaram e até se passaram ao papa. Mas o restante, imperturbáveis, em lugar de Eugênio elegeram a um novo papa, Félix V. Mas a escisão papal recordavam a todos e por isso, a eleição de um novo papa foi recebida com desconformidade. Só alguns poucos príncipes germânicos o reconheceram. Mas com tudo, o Concílio de Basel, que continuou com interrupções e em distintas cidades até 1449, debilitou marcadamente o poder papal. Suas reformas foram aceitas na França e Alemanha, e ali, em base a elas, o clero e as igrejas se encontraram em situação mais independente do papa. Na França, em 1438 apareceu, o que se chamou a "sanção pragmática" e na Alemanha em 1448 — o acordado veio, com os quais se definiam as relações das igrejas francesa e alemanha, com o papa.


Papa Félix V
Eugenio IV, ao terminar seus assuntos com os gregos, dirigiu todas suas forças para destruir as consequências do Concílio de Basel. O mesmo exigiam seus sucessores. Mas o despotismo papal era conhecido por todos e por isso as exigências dos papas para dominar sobre todas as igrejas, não tinham êxito. O que se refere à influência dos papas sobre a política dos estados ocidentais, isto já no século XV, os papas nem tentavam.
Eles entendiam que o tempo das idéias de Hildebrandt já haviam passado. Só na Itália e principalmente na região da igreja, o papado podia todavia usar o poder civil. Sobre a afirmação deste poder os sucessores de Eugênio IV, antes da reforma dirigiram toda sua atenção. Eles desejavam transformar a sua região da igreja em um verdadeiro estado, e ser seus soberanos. Como consequencia desta política o papado, mas que nunca tomou um caráter civil. De maneira que os pontífices e "aqueles que tinham o lugar de Cristo" se trasformaram em astutos políticos, intrigantes, soldados, tiranos luxuosos e imorais, etc. Assim, Leão X (de Médicis,1513-21), durante cujo reinado começou a reforma, era um suntuoso e licencioso soberano. Artes, letras e ciências às quais ele protegia, o causavam finos prazeres, porém a religião e a Igreja com este papa foram completamente esquecidos. O mesmo papa era cético em relação ao cristianismo e sua comitiva, abertamente, expressava sua falta de fé e ridicularizavam todo o sagrado.


Papa Leão X

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Segundo Concílio Regional de Constantinopla.


Segundo Concílio Regional de Constantinopla.

Prolegomena.

Traduzido pelo Presbítero Pedro Anacleto


Este Santo Concílio Regional reunido em Constantinopla depois do Santo e Segundo Concílio Ecumênico, no ano 394, de acordo com Dositeo e a Coleção dos Concilios feito por Milias, durante o reinado de Arcádio e Honório. Entre os participantes que eram três Patriarcas, isto é, Nectarios de Constantinopla, Teófilo de Alexandria, e Flaviano de Antioquia; e dezessete outros bispos desconhecidos seus nomes, juntamente com sacerdotes, todos eles sentados no illuminatório (i.e. , batistério) da Grande Igreja. A razão para esta reunião foi o caso de dois bispos, Agapios e Bagadios, ambos buscando serem bispos do episcopado de Bostra, e, na verdade, o fato de que a situação tinha chegado a tal ponto que Bagadios tinha sido deposto por apenas dois bispos, que também morreu por volta do tempo em que o Concilio estava sendo realizado. Assim, este Concílio decretou a apresentar dois Cânones sobre esta matéria, que são necessários para a boa ordem e a constituição da Igreja. Eles são confirmados pelo tempo indeterminado pelo cân. I do Quarto e por cân. I do Sétimo, e definitivamente pelo cân. II do Sexto (pois isso é a respeito do qual os Cân. II do 6º diz o seguinte: "Além disso e para além de todos estes e aqueles que agora novamente convocaram nesta imperial capital guardada por Deus e no tempo de Nectarios o presidente desta cidade imperial, e de Teófilos, que se tornou arcebispo de Alexandria ");. e em virtude desta confirmação que adquiriram uma força que de certa forma é ecumênica (i.e universal). Este Concílio, por outro lado, é denominado "Memórias transacionada em Constantinopla sobre Agapios e Bagadios, cada um dos quais estavam reivindicando o episcopado de Bostra". Ele está contido no Pandectos erroneamente na sequência do Concílio realizado em Cartago. É por isso que, após os anos em que foram realizados, como fizemos no caso de outros Concílios regionais, colocaram-no aqui diante do que ocorreu em Cartago.


Cânones.




1. Nós decretamos que não é permitido a um Bispo ser ordenado por dois, conforme o Concílio de Nicéia.
(Cân. Ap. I.).


Interpretação.

Desde que o Primeiro Santo Concílio Ecumênico promulgou em seu cân. IV que três bispos devem imperativamente se reunirem e ordenarem um bispo, tendo seguido o segundo decreto de Cân Ap. I, da mesma maneira como o presente Santo Concílio decreta que nenhum bispo pode ser ordenado por apenas dois bispos. Ver Cân. Ap. I.


2. Nós decretamos que doravante que um bispo responsável quando está a ser julgado pode ser deposto não por três, nem muito menos por dois, mas somente por votação de um grande Concílio e, se possível de todos os provinciais, assim como também decretou os Cânones Apostólicos, de forma que a condenação de um merecendo ser deposto pode ser demonstrado pelo voto da maioria, na presença de quem está sendo julgado, com maior precisão.
(Cân Ap. LXXIV.).

Interpretação.

Uma vez que, como dissemos antes, o bispo Bagadios foi deposto ilegalmente por apenas dois bispos, o atual Concílio anula isso e diz que seguidamente e, doravante, um bispo responsável não deverá ser deposto do cargo ou por dois ou por três bispos, mas, ao contrário, por um Concílio da maioria dos bispos, e se for possível de todos os bispos da província, assim como Cân Ap. LXXIV também decreta, a fim de que pelo voto da maioria a deposição de tais bispo pode ser decidida com mais precisão. Ele deve estar presente também quando ele está sendo processado e julgado, e não ser condenado na sua ausência. Veja também Cân. Ap. LXXIV.




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

PROFECIA SOBRE O FIM DOS TEMPOS

PROFECIA SOBRE O FIM DOS TEMPOS





















Por Santo Ambrósio de Optina

Tradução de Rafael Resende Daher

Santo Ambrósio de Optina

Meus filhos, saibam que os últimos dias estão chegando; e como disse o Apóstolo, eles serão pobres em piedades, e heresias e cismas irão aparecer nas igrejas; e como disseram os Santos Padres, não haverá nos tronos dos Mosteiros hierarcas que não sofrerão testes e tentações na vida espiritual. Portanto, heresias irão se espalhar e enganar a muitos. O inimigo da humanidade irá atuar com esperteza, e se fosse possível, ele levaria à heresia até mesmo os escolhidos. Ele não começará negando os dogmas da Santíssima Trindade, a divindade de Jesus ou a Theotokos, mas começará a distorcer os ensinamentos dos Santos Padres, em outras palavras, o próprio ensinamento da Igreja.


A astúcia do inimigo e seus caminhos será conhecida por muito poucos - apenas aqueles que possuírem mais experiência na vida espiritual. Hereges irão dominar a Igreja, em todos os lugares, e irão nomear os seus servos, e a espiritualidade será negligenciada. Mas o Senhor não irá abandonar os Seus servos. Na verdade, o dever do inimigo é perseguir e prender os verdadeiros pastores, pois sem isso, o rebanho espiritual não poderá ser capturado pelos hereges.



Então, meu filho, quando você ver nas Igrejas o deboche dos atos Divinos, dos ensinamentos dos Santos, e da ordem estabelecida por Deus, saiba que os hereges já estarão presentes. Também fiquem atentos por um tempo, pois eles irão esconder suas más intenções, ou poderão deformar a fé divina secretamente, para que tenham sucesso ao lubridiar e enganar os inexperientes.



Eles irão perseguir os pastores e os servos de Deus, pois o demônio que estará dirigindo a heresia não terá força para destruir a ordem Divina. Como lobos em pele de cordeiro, eles serão reconhecidos por suas vanglórias, amor pela cobiça e poder. Todos eles serão traidores, causarão ódio e malícia em todos os lugares, o Senhor disse que eles podem ser facilmente reconhecidos pelos seus frutos. Os verdadeiros servos do Senhor são mansos, amam o irmão e obedecem a Igreja (ordem, tradições).



Nesta época, monges irão sofrer grande perseguições dos hereges, e a vida monástica será ridicularizada. As famílias monásticas serão empobrecidas, e o número de monges irá cair. Os que permanecer sofrerão violência. Estes inimigos da vida monástica, que terão apenas a aparência de piedade, irão lutar para levar os monges para o seu lado, prometendo-os proteção e coisas mundanas (conforto), mas ameaçarão com o exílio aqueles que não se submeter a eles. Com essas ameaças, os fracos de coração serão humilhados (atormentados).



Se você viver para ver este tempo, alegre-se, pois nesta época o fiel que não tiver nenhuma virtude receberá sua coroa apenas por permanecer na verdade, segundo a palavra do Senhor: "Quem, pois, me confessar diante dos homens, eu também o confessarei diante do meu Pai que está nos céus".



Tema ao Senhor, meu filho, e não perca essa coroa assim como os que foram rejeitados por Cristo e foram para as profundezas da escuridão do tormento eterno. Permaneça na verdade com bravura, e se necessário, sofra as perseguições e outras tribulações com alegria, pois apenas assim o Senhor permanecerá com você... e os santos mártires e confessores irão alegremente observar a sua luta.



Mas nestes dias, infeliz do monge que tiver posses e riquezas, e daqueles que, pela salvação de seu conforto, concordar se submeter aos hereges. Eles irão acalmar suas consciências dizendo: salvamos o Mosteiro, e o Senhor nos perdoará. Desafortunados e cegos, eles nem mesmo pensarão que por suas heresias os hereges entrarão no Mosteiro, e que ele não será mais um santo Mosteiro, mas de suas paredes a graça de Deus partirá para sempre.



Mas Deus é mais poderoso que o demônio, e Seus servos nuca serão abandonados. Sempre haverá verdadeiros Cristãos, até o fim dos tempos, mas eles irão escolher lugares solitários e desertos. Não tema as tribulações, mas tema a perniciosa heresia, pois ele afasta da Graça Divina, e nos separa de Cristo, pois Cristo nos mandou considerar e tratar o herege como um pagão e publicano.



E então, lute, meu filho, permaneça firme na Graça de Cristo Jesus. Com alegria, aumente sua confissão e agüente o sofrimento como um bom Soldado de Cristo, que disse: "Sejam fiéis até a morte, e eu os darei a cora da vida". 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O Concílio de Cartago no período de S. Cipriano


O Concílio de Cartago no período de S. Cipriano



 Traduzido pelo Presbítero Pedro Anacleto

Prolegômenos.



Houve três concílios regionais que foram realizados em Cartago, uma cidade na África, em relação ao rebatismo, no tempo de São Cipriano, o mártir. Um deles foi no ano 255 D.J.C. e no quarto ano do reinado de Valeriano e Galieno, ao qual foi decretado que ninguém poderia ser batizado fora da Igreja, uma vez que a Igreja reconhece somente um batismo, daí os hereges que se juntam à Igreja Católica tem que serem rebatizados. Mas as pessoas que foram batizadas anteriormente canonicamente pela Igreja Ortodoxa e, mais tarde tornam-se hereges, deve ser aceito ao voltar para a Ortodoxia, não pelo batismo, como Novatius estava afirmando, mas unicamente pela oração e imposição das mãos (sobre os quais ver também can. VIII do 1 º), como é claramente evidente a partir da carta dirigida a Quintus por Cipriano e numerada 71. Um segundo concílio foi realizado no ano 258 (ou 256 de acordo com Milias no primeiro volume dos Concílios). Estiveram presentes 71 bispos da Numídia e de outras partes da África, a quem São Cipriano tinha reunido a fim de que eles pudessem afirmar com maior força e efeito e confirmar o decreto relativo ao rebatismo que tinha sido estabelecido no concílio anterior. Eles primeiro decretaram que todos aqueles que estavam na Igreja, ou seja, fossem clérigos, e deixassem a fé, eram para serem aceitos  ao seu regresso apenas como leigos, e em segundo lugar, que o batismo realizado por pessoas que eram hereges era tão inválido que, quando convertidos teriam de serem batizados na forma ortodoxa, mas não deviam ser considerados para serem batizados pela segunda vez, mas deve ser considerado como receber o batismo pela primeira vez em sua vida, e além de tudo que eles nunca tinham tido qualquer verdadeiro batismo. Mas um terceiro concílio também foi realizado em Cartago, no mesmo ano pelo mesmo São Cipriano, e foi assistido por 84 bispos. Ele enviou a carta conciliar presente canônica, que é o mesmo que dizer o Cânon presente, ao Bispo Joviano e seus colegas bispos, como Zonaras afirma (e como a própria carta indica claramente), porque esse bispo perguntou ao divino Cipriano se os Novacianos cismáticos devem ser batizados com a adesão à Igreja católica. Mas como muito aprendido de Dositeu (p. 55 do Dodecabiblus) diz, foi por causa de uma carta que foi enviada pelo segundo concílio acima mencionado ao Papa Estevão de Roma revelando o que havia decidido e decretado sobre o rebatismo; Estevão, convocando um concílio em Roma, invalidou a carta ao decretar que o batismo de hereges que batizam como a Igreja não deveria estar em vigor duplo, ou seja, repetido, como afirma Cipriano em sua carta a Pompeu Sabratensio, um bispo na África. Portanto, para o propósito de proporcionar a confirmação completa da necessidade de rebatismo e do batismo realizado uma vez e duas vezes como determinado pela decisão conciliar, e tendo em vista a rejeição do que havia sido decretado pelo Papa Estevão, este terceiro Concílio foi convocado por São Cipriano, e emitiu o presente Cânon. Note que embora este Concílio ter sido colocado na frente de todos os Concílios Ecumênicos e outros concílios regionais devido ao fato de que precedeu todos eles no ponto de tempo, ele foi colocado aqui depois deles na seqüência e os Concílios Ecumênicos foram introduzido à frente, colocando depois o presente Concilio, sendo regional, é de menor importância e tem menos reivindicação a uma colocação à frente. (Veja Dositeu sobre estes concílios nas páginas 53 e 975 da Dodecabiblus;. E ver p. 98 do primeiro volume dos Registros Conciliares) Esta mesma regra foi observada também em relação ao outros concílios regionais que precederam aos Concílios Ecumênicos , a de ser colocado, isto é, depois dos Concílios Ecumênicos em virtude da sua autoridade. Quanto a São Cipriano, que reuniu esses três Concílios, sofreu o martírio no reinado do imperador Décio. O maravilhoso elogio que a língua teológica de São Gregório concedeu à sua santidade é suficiente para o seu louvor. 

Cânon.


1.                  Enquanto reunidos em um parlamento, queridos irmãos, lemos cartas enviadas por vocês a respeito daqueles que estão presumidos entre os hereges ou cismáticos tem sido batizado e que estão se unindo à Igreja católica, que é uma única instituição em que somos batizados e somos regenerados , sobre quais fatos estamos firmemente convencidos de que vós mesmos, ao fazer isso estão garantindo a solidez da Igreja católica. No entanto, na medida em que você está na mesma comunhão conosco e quer saber mais sobre este assunto por conta de um amor comum, somos movidos a dar-lhe, e combinamos em fazer assim, não uma opinião qualquer recente, nem algo que tenha sido só hoje estabelecido, mas, pelo contrário, aquilo que tem sido experimentado e testado com toda a precisão e diligência de outrora pelos nossos antecessores, e que tem sido observado por nós. Ordenando isso também agora, que temos sido fortemente e firmemente, assegurando ao longo do tempo, nós declaramos que ninguém pode ser batizado fora da Igreja católica, não sendo, mas um só batismo, e sendo este existente só na Igreja católica. Pois tem sido escrito: “Porque meu povo cometeu uma dupla perversidade: abandonou-me, a mim, fonte de água viva, para cavar cisternas, cisternas fendidas que não retêm a água.” (Jeremias 2:13). E mais uma vez a Bíblia Sagrada adverte dizendo: “Bebe a água do teu poço e das correntes de tua cisterna.(Prov. 05:15) Pois a água deve ser primeiro purificada e santificada pelo sacerdote, a fim de que ela possa ser capaz de enxugar com a sua eficácia batismal os pecados da pessoa a ser batizada. Através de Ezequiel, o profeta, o Senhor diz: Derramarei sobre vós águas puras, que vos purificarão de todas as vossas imundícies e de todas as vossas abominações. Dar-vos-ei um coração novo e em vós porei um espírito novo; tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne.” (Ez 36 :25-26). Mas como pode alguém que é impuro se purificar e santificar a água, quando não há nele o Espírito Santo, e o Senhor diz no Livro dos Números: "Tudo o que tocar o impuro será manchado” (Nm 19:22) . Como pode alguém que tem sido incapaz de depositar os seus próprios pecados fora da Igreja administrar o batismo a outra pessoa para deixá-lo ter a remissão dos pecados? Mas mesmo a questão em si, que surge no batismo é um testemunho da verdade. Ao dizer para o que está sendo batizado, "Crês em uma vida eterna, e que tu deve receber a remissão dos pecados?" estamos dizendo nada mais do que pode ser dado na Igreja católica, mas que entre os hereges, onde não há Igreja, é impossível receber a remissão dos pecados. E por esta razão os defensores dos heréticos deveria, quer para alterar a essência da questão para outra coisa, ou então dar a verdade um julgamento, a menos que tenham algo a acrescentar a Igreja a eles, como um bônus. Mas é necessário para qualquer um que foi batizado ser ungido, a fim de que, ao receber o Crisma, ele possa se tornar um participante em Cristo. Mas nenhum herege pode santificar óleo, sendo que ele não tem nem um, nem altar de uma igreja. Nem uma gota de crisma pode existir entre os hereges. Pois é óbvio para você que nenhum óleo pode ser santificado entre eles para uso em conexão com a Eucaristia. Por que devemos estar bem consciente, e não ignorantes, do fato de que tem sido escrito: "Não deixe que o óleo de um pecador unja a minha cabeça" Salmo 140:05; que, de fato, mesmo nos tempos antigos, o Espírito Santo deu a conhecer, com salmos, para que ninguém, tendo sido desviado e desviados do caminho reto, ser ungido pelos hereges, que são adversários de Cristo. Mas como aquele que é, não um sacerdote, mas um sacrilegista e pecador, rezar pelos batizados, quando a Sagrada Escritura diz que Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem lhe presta culto e faz a sua vontade.” (João 9:31). Através da Santa Igreja, podemos conceber a remissão dos pecados. Mas quem pode dar o que ele não tem consigo mesmo? Ou como se pode fazer trabalhos espirituais, quem tornou-se destituído do Espírito Santo? Por essa razão ninguém que se junta à Igreja deve ser renovado, a fim de que dentro através dos elementos santos ele se torne santo. Porque está escrito: "Sede santos, assim como eu mesmo sou santo, diz o Senhor" (Lev. 19:02; 20:7), a fim de que mesmo aquele que foi enganado por argumentos ilusórios possa lançar em engano o verdadeiro batismo na Verdadeira Igreja quando como um ser humano ele se aproxima de Deus e procura um padre, mas, depois de ter se desviado em erro, se depara como um sacrilegista. Para simpatizar com pessoas que tenham sido batizados por hereges é o mesmo que aprovar o batismo administrado por hereges. Pois não se pode conquistar em parte, ou vencer qualquer um parcialmente. Se ele foi capaz de batizar, ele conseguiu também a transmissão do Espírito Santo. Se ele não foi capaz, porque, estando fora, ele não tinha o Espírito Santo, ele não pode batizar a próxima pessoa. Não havendo, mas um só batismo, e não ser, mas um só Espírito Santo, mas há também uma só Igreja, fundada por Cristo, nosso Senhor sobre (Pedro Apóstolo no começo dizendo) unicidade e unidade. E por esta razão que eles fazem é falso e vazio e vão, tudo que está sendo falsificado e não autorizado. Em vão é o que eles fazem e não pode ser aceitável e desejável a Deus. Na verdade, o Senhor os chama seus inimigos e adversários nos Evangelhos: "Aquele que não está comigo é contra mim, e aquele que comigo não ajunta, espalha" (Mateus 12:30). E o bem-aventurado Apóstolo João, que guardado os mandamentos do Senhor, declarou de antemão em sua epístola: "ouvistes que o anticristo virá, mas até agora não vieram a não ser muitos anticristos" (1 João 2:18). Por isso sabemos que é a última hora. Eles saíram de nós, mas não eram de nós. Por isso nós também devemos entender e pensar, que os inimigos do Senhor, os chamados anticristos, não poderiam dar a graça do Senhor. E por esta razão nós que estamos com o Senhor, e que estamos defendendo a unicidade e unidade do Senhor, e depois a medida de seu valor impregnando-nos com isso, exercer seu sacerdócio na Igreja, devemos reprovar, recusar e rejeitar, e tratar como tudo, profano feito por seus adversários, isto é, inimigos e anticristos. E para aqueles que do erro e da desonestidade chegar o conhecimento da verdadeira e eclesiástica fé que devemos dar livremente o mistério do divino poder, de unidade, bem como de fé e da verdade.
 
(Can. Ap. cc XLVI, XLVII, LXVIII;. 2º Conc Ecum can. VII;. 6º  Conc.
XCV)

Interpretação.

 O presente Cânon prova, por meio de muitos argumentos, que o batismo administrado por hereges e cismáticos é inaceitável, e eles devem ser batizados quando retornam à ortodoxia da Igreja Católica. 1) Porque há um só batismo, e porque este pode ser encontrado somente na Igreja Católica. Hereges e cismáticos, por outro lado, estando fora da Igreja Católica, não têm, em conseqüência, nem mesmo um batismo. 2) A água utilizada no batismo deve primeiro ser purificada e santificada por meio de orações dos sacerdotes, e pela graça do Espírito Santo; depois ela pode purificar e santificar a pessoa a ser batizada nela. Mas os hereges e cismáticos não são sacerdotes, sendo, na verdade, o inverso sacrilegistas, nem limpos, nem puros, sendo na verdade impuros e imundos, nem santo, por não ter de forma alguma o Espírito Santo. Então, nem tampouco terão eles o batismo. 3) Através do batismo na Igreja Católica é dada a remissão dos pecados. Mas através do batismo administrado por hereges e cismáticos, na medida em que estão fora da Igreja, como pode qualquer remissão dos pecados ser dada? 4) A pessoa deve ser batizada, depois que ela é batizada, ser ungida com o miron preparados a partir de azeite de oliva e especiarias diversas, que foi santificado pela visitação do Espírito Santo. Mas como pode um herege santificar qualquer miron, tal como quando uma questão de fato ele não tem o Espírito Santo por causa de estar separado dele por motivo de heresia ou cisma? 5) O sacerdote deve orar a Deus para a salvação de quem está sendo batizado. Mas como pode um herege ou um cismático ser ouvido por Deus, quando, como já dissemos, ele é um sacrilegista e um pecador (não tanto por conta de suas obras, mas sim por causa da heresia ou cisma, sendo estes os maiores pecados de todos os pecados), no momento em que a Sagrada Escritura diz que Deus não escuta os pecadores. 6) Porque o batismo administrado por heréticos e cismáticos não pode ser aceitável a Deus como batismo, já que são inimigos e os inimigos de Deus (isto é, mutuamente), são chamados de anticristos por João. Por todas essas razões, então, este Cânon e outros presentes, com um olhar para a precisão e rigor, insiste que todos os hereges e cismáticos devem serem batizados, acrescentando também a observação de que esta opinião - que qualquer batismo, isto é, administrado por hereges ou cismáticos é inaceitável - não é novidade dos Pais deste Concilio, mas, pelo contrário, é velho, experimentado e testado por seus antecessores (que desde cedo veio trazido pelos sucessores dos Apóstolos) com grande diligência e precisão, e é consistente em todos os aspectos com Cân Ap. cc. XLVI, XLVII, e LXVIII. Não só o Cânon presente rejeita o batismo administrado por hereges e cismáticos, de comum acordo, mas também no privado e individualmente cada um dos 84 Pais presentes no Concílio, com um argumento separado - o que é o mesmo que dizer, com oitenta e quatro argumentos distintos - o rejeitaram. É por isso que o 2º Concílio Ecumênico em seu cân. VII reservou o presente Canon a parte (mas se não reservou-o para tudo, ele fez isso por meio de "economia" e de concessão, e não no pleno respeito da precisão, como já dissemos na nota de rodapé para o Cân. Ap. XLVI ), e o 6º Conc. Ecumênico em seu cân. II sancionou e ratificou (embora possa ser dito que se aplicava apenas para as regiões da África, ainda, uma vez que realmente sancionada e ratificada, ele confirmou ainda mais, e não revogou ou anulou-o). São Basílio Magno, também, aceita-a no seu cân. I. Veja também a nota de rodapé para o referido Cân Ap. cân. XLVI. Outro. O Concílio Ecumênico aceitou e ratificou as declarações dos Concílios em seus mais particulares detalhes, e de fato pelo nome os Cânones de São Basílio, o Grande, como vimos no c. II do 6º . Por isso, é para ser logicamente inferir que eles aceitaram e confirmaram juntos com ele tudo o que os Concílios Regionais e S. Basílio, o Grande, tinha anteriormente decretado e, portanto, é corretamente e com confiança e certamente concluiu que todos os hereges devem sem dúvida serem batizados. Quanto à "economia" que certos pais empregaram por um tempo, não pode ser considerada tanto como uma lei ou um exemplo, mas se fosse para investigar a forma correta a matéria, seria, finalmente, descobrir que esses hereges que o Segundo Concílio Ecumênico aceitou "economicamente" eram em sua maioria pessoas em ordens sagradas que tinham sido já devidamente batizados, mas sucumbiu a alguma heresia, e por causa disso, a Igreja empregava essa "economia". A verdade, porém, da divina Escritura, e motivo certo provam incontestavelmente que todos os hereges devem ser batizados. 

sábado, 4 de fevereiro de 2012

39. Aliança do Papado com os Francos. O Estado da Igreja. Ruptura com Bizâncio.



Traduzido pelo Presbítero Pedro Anacleto

1.                  Ao falar de Gregório Magno já pudemos comprovar que seu olhar se voltava para os povos bárbaros da Europa, para congregá-los por meio da evangelização em torno a Roma, a cátedra Petri. Esta tendência foi seguida cada vez mais intensamente pelos papas do século VIII. Foi um movimento paralelo à confrontação com os imperadores romanos do Oriente e a uma progressiva separação deles, e se expressou na experiência de que "todo o Ocidente tem grande confiança em nós e em São Pedro, a quem todos os reinos do Ocidente veneram como a Deus na terra," e estão dispostos a defender ao papa contra o imperador iconoclasta. Efetivamente, as milícias de Pentápolis e Veneza responderam a uma chamada semelhante do Papa Gregório II, da qual são as palavras anteriormente citadas, dirigidas ao imperador Leão III.
Papa Gregório II 

Imperador Leão III

Não é possível comprovar se ditas manifestações estiveram já inspiradas na idéia de um novo Império ocidental em união com a Igreja ou se a ameaça econômica e política do Oriente, junto com a idéia religiosa da evangelização nórdica (a legatio romana de Bonifácio!) sob o reinado e com a ajuda dos príncipes francos, fez surgir um novo programa eclesiástico-político. A evolução efectiva, que haveria de culminar primeiro na aliança entre o papado e os francos e, depois, no novo Império romano ocidental e a vinculação do papado com ele, é em todo caso deduzível dos acontecimentos históricos.
De momento, aqui nos ocupamos só com as primeiras etapas: Gregório II já tinha planejado uma viagem aos povos do Norte. Gregório III ainda chamou em vão a Carlos Martel no ano 739, para que se encarregasse da proteção de São Pedro. A realização efetiva abriu caminho graças à decisão do Papa Zacarias, como veremos, e às viagens dos papas através dos Alpes e, logo, aos dos reis nórdicos até Roma, donde das mãos do vigário de São Pedro e junto a seu sepulcro recebiam, mediante unção consacratória, a dignidade imperial universal.

Papa Zacarias

Desde o princípio houve uma grande tensão (decisiva em seus efeitos históricos) entre os objetivos e ao conceito dos bispos romanos por uma parte e dos francos por outra. Os papas elevaram ao mordomo dos francos à dignidade real e logo o fizeram imperador, a fim de que como patrício romano protegesse a Igreja de São Pedro. A autoridade quase absoluta do rei franco sobre sua Igreja territorial, que logo se converteria em Igreja imperial, pretendeu muito mais. Mas, desde logo, isto não correspondia em absoluto ao ideal eclesiástico-universal dos papas.

Segundo a diversa situação política objetiva, as pretensões de ambas as partes se faziam respectivamente mais unidas ou se recuavam: mas a tensão como tal se manteve e fez que a evolução avançasse, tal como agora poderemos segui-la ao longo da história da Idade Média. A aliança entre o papado e os francos e logo entre o papado e o império fez que a Idade Media alcançasse seu apogeu. Mas os problemas inerentes a esse processo não se solucionaram ao todo e por isso a Idade Media se quebrou, por assim dizer, em si mesma.

A análise e as considerações que seguem não devem se interpretar em um sentido político excessivamente realista. Os francos ocuparam o lugar dos "gregos," isto é, dos romanos do Oriente; mas se diferenciavam fundamentalmente deles pela anteriormente dita veneração dos germanos (não isenta de infantilismo) a Pedro, o porteiro do céu, e pelo consequente reconhecimento real (que, nem por isso, não deve entender-se no sentido demasiado estrito) de seus sucessores e representantes, os papas.

2. Bonifácio havia vinculado estreitamente a Igreja franca com Roma. O bispo de Roma, o Papa Zacarias, se dirigiu a Pepino no ano 751. Uma vez que Carlos Magno abandonou o governo, Pepino foi o único dono do poder político, mas todavia não estava assegurado contra a competência de seus filhos, que entretanto haviam alcançado a maior idade. Ao longo, só a dignidade real podía proteger eficazmente sua posição de força. Por isso ele, que já era "senhor" da Igreja territorial franca, perguntou ao papa "se quem já possuia o poder real não deveria também ser rei." A pergunta implicava indiretamente o reconhecimento, até então inaudito, de uma autoridade do papado com caráter vinculante no plano estatal. Zacarías concordou a elevar o mordomo à dignidade real. Pepino foi eleito rei. Os bispos o conferiram uma unção que outorgou ao reino franco uma consagração cristã-eclesial e com isto uma nova autoridade. Dadas as circunstâncias, isto significou ao mesmo tempo uma união do rei franco com Roma.

Não importa se foi Bonifácio que ungiu a Pepino ou se esta unção a realizaram outros bispos francos; em qualquer caso, aqui encontrou sua continuação à obra mais pessoal de Bonifácio e aqui se iniciou aquela grandiosa aliança de Carlos Magno com a Igreja, que daria origem à verdadeira Idade Média.

3. Esta aliança entre o papado e os francos se completou, reinando ainda Pepino, com o Papa Estevão II (752-757). A Itália todavia pertencia nominalmente ao Império Romano do Oriente; em Ravena residia o representante do imperador (§ 35), mas sua influência política se havia debilitado enormemente. Porém, o papa continuava sendo súdito político de Bizâncio; até os documentos papais se datavam ao modo bizantino, e os papas da época, apesar da mútua hostilidade, guardaram aos imperadores bizantinos fidelidade durante um tempo surpreendentemente longo. Por outra parte, o prestígio secular e o valor político real do papa cresceram uniformemente (§ 35). Mas os longobardos queriam Ravena e Roma e se possível, toda Itália. Gregório III foi o primeiro papa que solicitou de Carlos Martel ajuda e proteção contra eles, mas em vão. Quando a pressão dos longobardos se fez questão de vida ou morte (conquista do exarcado de Ravena e de Pentápolis pelo rei Astolfo, 749-756) e novamente não chegou ajuda alguma do imperador, o Papa Estevão II se dirigiu àquele soberano que, em boa parte, devia sua coroa ao papado. Conduzido e protegido pelos legados francos, em Pavia se separou não só do rei longobardo (muito apesar deste último!), senão também dos legados do imperador romano oriental, e no Império dos francos teve com Pepino dois encontros de suma importância para a história universal, primeiro em Ponthion e logo em Quierzy. Concluidas as negociações, na Páscoa do ano 754 e na abadia real de St. Denis consagrou a Pepino pela segunda vez (e ao mesmo tempo a sua mulher e a seus dois filhos; assim, pois, também ao que logo seria Carlos Magno).

Rei Astolfo  

Papa Estevão II

4. Que com isto não ficaram por tudo eliminadas as profundas tensões existentes é evidente por si mesmo e pelas peculiaridades da constelação histórica; já iremos conhecê-las.

a) Inclusive esta mesma união (e com ela a futura unidade do Ocidente) não ficou assegurada de uma vez para sempre. Os laços dos papas com o supremo senhor político da Roma oriental não estavam definitivamente quebrados. Os papas, como já se tinha dito, seguiram ainda muito tempo datando seus documentos segundo os anos do reinado Basileus, "nosso senhor"; em Constantinopla, apesar do grave escândalo que provocou o proceder do bispo de Roma, se entendeu a união com os francos antes de tudo como uma tentativa de defesa contra o inimigo comum, os longobardos. De fato, o perigo por este lado era muito grande: o piedoso Carlos Magno abandonou inesperadamente seu mosteiro, a instancias do longobardo Astolfo, para fazer fracassar a união do papa com Pepino; de êxito se beneficiaram também seus filhos adultos. De acordo com Pepino, o papa mandou trancar em um mosteiro franco ao monje fugitivo, antigo mordomo, junto com seus dois filhos.

Mas os francos em absoluto consideraram definitiva a aliança sem por nenhum reparo; por exemplo, do importante título de "patrício" não fizeram uso até depois da conquista do reino longobardo, quando dito título representou não somente deveres, senão também direitos.

A íntima tensão entre sacerdotium e imperium se evidenciou já no princípio da aliança: o informe romano sobre o sucedido em Ponthion-Quierzy é essencialmente diferente do franco na forma no conteúdo.
Nem porém, aqui havía ocorrido algo decisivo. Se haviam assentado as bases para o futuro, no sentido da aliança eclesiástico-política medieval.

b) Se estabeleceu uma série de ações cheias de simbolismo e se formulou uma série de exigências e reconhecimentos historicamente vinculantes: Pepino havia prestado ao papa serviços de cavalaria maior, que no cerimonial cortesão bizantino únicamente podiam prestar-se ao imperador (pela primeira vez aparece uma vaga indicação do papa como imperador!). Por sua parte, Estevão, no dia seguinte, vestido de saco e cinza, se havia se jogado aos pés de Pepino e o havia rogado, pelos méritos do príncipe dos apóstolos, que o livrara das mãos dos longobardos. Há que ter muito em conta que o sócio de Pepino neste convenio em definitivo não é o papa, senão Pedro, o porteiro celestial, cujos "bens" roubados devem ser restituídos a seu legítimo propietário. Com o qual Pepino assume a defesa dos privilégios de Pedro 25.

As fontes não nos oferecem um quadro unitário e claro. O novo está junto ao velho de forma imediata, mas ainda, inconciliável. Se pode quase palpar com as mãos que tudo está a vir. Umas vezes parece perceber-se confusamente uma íntima contradição ou divergência, outras parece que conscientemente se pretende não sair da ambigüidade.

Quaisquer que tenham sido em concreto as intenções, no fundo o poder profético-espiritual do sumo sacerdote logrou aqui uma legitimação política, isto é, um poder político: o eclesiástico-pontifício, com grande estilo, penetrou directamente no político-temporal. A união e, em certo modo, a mescla de ambas esferas, base para toda a Idade Média, se deu já aqui, aceitado por ambas as partes, ainda que, como já se tem dito, arrastrando certas confusões e, sobre tudo, sem que as tensões mais profundas pudessem serem eliminadas.

c) O proceder de Estevão significou de fato, ainda que não formalmente, a ruptura com Bizâncio, ou seja, a ruptura com o antigo Império romano: desde este momento o papado seguiu, em medida sempre crescente, seu próprio caminho político. O papa exigiu que a ele se restituísse a zona do imperio como possessão jurídica, conferiu a Pepino o título de patricius, que até então havia sido concedido exclusivamente pelo imperador (com este caso pode ver se como o Bispo de Roma exerce poderes que a ele não corresponde canônicamente (poder político) e começa a desviar por um caminho diferente do resto da Igreja Universal Ortodoxa, buscando sempre o poder temporal, o do império), e com isto transferiu ao rei dos francos e a sua casa a função protetora de exarca imperial de Ravêna. De fato, Pepino atravessou duas vezes os Alpes (754 e 756) para proteger o papa. Entregou à Sede Romana as zonas arrebatadas por ele aos longobardos (Pepino mandou que as chaves das cidades conquistadas fossem depositadas no sepulcro de São Pedro). O papa se converteu em um soberano temporal; por meio desta "doação de Pepino" se fundou o "Estado da Igreja" com Roma inclusa (756). O papa, pois, ficou políticamente sob a proteção dos reis francos. Mas não tardaria em chegar o momento em que este poder de proteção haveria de converter-se em uma supremacia política (cf., a este respeito, o mapa 17).

5. Estas concepções (sob muitos aspectos tão diversos, mas ao principio ainda não claramente delimitadas) sobre a essência e a missão de cada um dos dois "supremos" poderes e sua relação mútua encontraram ao longo dos séculos uma expressão literária cada vez mais rica, primeiro em forma de documentos (autênticos ou falsos), logo depois de tratados teóricos e, finalmente, de libelos e escritos polêmicos.

Como sempre ocorre em tão complicados processos, o mais importante são os fundamentos e a tendência evolutiva que neles se aponta.

a) Um dos principais objetivos da Igreja de Roma foi sua indepêndencia da pressão do Estado, ou seja, do imperador romano ou romano-oriental. Este motivo ficou refletido na lenda de São Silvestre, isto é, em uma narração fabulada segundo a qual o papa Silvestre I havia batizado a Constantino o Grande e o havia livrado com isto da lepra; em agradecimento o imperador havia dado ao papa valiosos presentes (por exemplo, o palácio de Latrão).

São Silvestre 

Constantino o Grande 

Palácio de Latrão

b) Esta lenda encontrou sua redação literária definitiva em um documento falsificado: a chamada "Doação de Constantino," que haveria de revestir fatal importância para a evolução do Ocidente, especialmente para a relação sacerdotium e imperium. Por desgraça não se pode por definitivamente em claro nem o tempo nem o lugar de origem de tal documento. Junto a tendencias romano-papais se encontram também elementos que permitem deduzir influências francas. Na ordem política e político-eclesiástica esta falsificação foi utilizada únicamente pelos papas, esporadicamente no século X, mais intensamente no século XI e de forma geral desde o século XII. Já Otão I e excepcionalmente Otão III (em um documento do ano 1001) a consideraram uma falsificação. Mas logo foi tida por autêntica durante toda a Idade Média. No século XV, por fim, foi demonstrada sua falsidade (entre outros, por Nicolás de Cusa, § 71). 

"Doação de Constantino,"   

Otão I  
  
Otão III   

Nicolás de Cusa

c) O documento falso se fez passar por decreto imperial a favor do Papa Silvestre e seus sucessores "até o fim deste tempo terreno."

Esta falsa "doação de Constantino" foi depois recolhida como a peça principal na chamada "Recopilação de Decretais" do Pseudo-Isidoro (cf. § 41, II, 3).

6. É evidente que também nós devemos tomar postura ante tão massivas e falsas afirmações, que tanta trascendência histórica tiveram.

a) Na Idade Média foram frequentes as falsificações de documentos 26. O atual conceito de falsificação de um documento era desconhecido naqueles séculos, alheios por inteiro ao modo de pensar histórico. A pouco se tratava de formular um direito autêntico, mas não garantido por escrito. Em outros casos se tratava de fortalecer a própria posição por meio de documentos inventados. Nas peças falsas da recopilação pseudo-isidoriana se transluz as duas formas de pensar. O decisivo é a datação anticipada contrária à verdade (ou também a invenção de documentos "antigos") com o fim de dar às idéias hierocráticas sustentadas o caráter de dignidade apostólica ou proto-cristã.

As decretais pseudo-isidorianas desempenharam depois um papel muito importante na criação da supremacia papal, específica da Idade Média. O fato de que muitas das peças contidas nelas sejam falsas se considera como um grave peso contra o catolicismo. Pois, desde o ponto de vista histórico, a evolução ao pleno poder típicamente medieval do papado se realizou, efetivamente, também com a ajuda daquelas peças falsas. Daí que um juízo puramente espiritualista acredita poder discutir o direito do efectivo desenvolvimento da soberania do papa. Mas é precisamente este juízo moderno dos sucessos de então o que resulta grosseiramente anti-histórico; visto a conexão então existente entre poder material, político e espiritual (entre os representantes do sacerdotium, do regnum e do imperium), tal juízo é insustentável. Também, o núcleo central de toda a tendência era a exaltação do religioso-eclesiástico, mas concretamente o papal, sobre o mundano. Nem porém toda esta grave problemática, que veremos com detalhe dentro deste complexo, não podemos sem mais nem negar a legitimidade histórica do dito núcleo central.

b) Diante de tudo: o primado dogmático de jurisdição, que não está condicionado pelo tempo histórico, é totalmente independente desses falsos apoios. O fundamento bíblico (inclusa a tendência orgânica de desenvolvimento, essencial à Igreja) não tem nada a ver com eles. Que, por outra parte, também ditas falsificações tem contribuído a robustecer a idéia do papado é outro testemunho histórico de como o caminho da revelação pela historia e a forma de seu crescimento histórico tem estado sempre muito unido à respectiva situação histórica. Um resultado desta evolução, "o poder absoluto do papa no temporal," acabará na alta e tardia Idade Média exagerando a implicação do eclesiástico e do temporal de uma forma que resultará na maioria das vezes gravemente nociva para o religioso-eclesiástico. Mas enquanto ao resultado essencial, o primado de jurisdição, também esta evolução participa no mistério da felix culpa.

25 Responde a esta concepção o fato de que Pepino no mesmo ano, fez que a liturgia romana fosse obrigatória para a Igreja Franca, substituindo a antiga e venerável liturgia gálica.

26 No âmbito diretamente histórico-eclesiástico, já o Papa Nicolau I, em seu longo escrito de protesto dirigido ao imperador Miguel III (865), criticou aos gregos a falsificação das cartas pontifícias como algo que sucedia frequentemente. As gestões dos concílios e as assembléias ocorridas sob Fócio confirmam este juízo.
CE, 2005.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Concílio realizado no Templo de Santa Sofia


O Concílio realizado no Templo de Santa Sofia (Sabedoria)

Traduzido pelo presbítero Pedro Anacleto

Prolegomena.


O Santo Concílio que foi convocado na parte do lado direito dos catecúmenos um quarto "da Grande Igreja, também conhecido como o Templo de Santa Sofia (Sabedoria), foi realizada no ano 879 depois de Cristo e no décimo terceiro ano do reinado de Basílio, o Macedônico. Foi assistido por 383 pais, dos quais os de maior destaque foram: o Santíssimo Patriarca de Constantinopla Fótios; Pedro, o Presbítero, um cardeal e legado do Papa João, juntamente com Paulo e Eugenio; Elias presbítero, o legado do Patriarca de Jerusalém Teodósios; Presbítero Cosmas, o apocrisarius de Miguel, o Patriarca de Alexandria; Basílios, o Bispo de Martirópolis e legado de Teodósios, o Patriarca de Antioquia. Este Concílio foi realizada, principalmente e, principalmente, a fim de acabar com os escândalos que surgiram entre os orientais e os ocidentais em relação à Bulgária, mas em adição aos mesmos com a finalidade de efetuar a união dos bispos que haviam dividido por conta da expulsão de Inácio e da ordenação de Fócios. Para este Concílio, após proclamar o 7º Santo Concílio Ecumênico e ter sido verdadeiramente ecumênico, e classificá-lo juntamente com os outros seis Concílios Ecumênicos, e anatematizando todos aqueles que não o classificaram-no (pois havia algumas pessoas na França) que reconheceram o Santíssimo Patriarca Fotios e o proclamaram-no Patriarca legal e canônica de Constantinopla, e repudiaram e proibiram os Concílios que tinham sido realizados contra Fótios em 'Roma e Constantinopla. Tendo feito estas coisas, e nas Sextas e Setimas Atas tendo corretamente e piedosamente decretados que o Santo Credo (ou Símbolo da Fé) deve permanecer sem inovação e imutável para sempre, e pronunciaram terríveis anátemas contra qualquer pessoa que se atrever a juntar-lhes qualquer coisa ou daí remover qualquer coisa, eles também emitiram os presentes três Cânones em sua quinta ata, Canones que são necessários para o decoro e estabilização da Igreja e que foram e são aceitos por nossa Igreja inteira como genuínos, assim como todos os exegetas dos sagrados cânones em comum que declaram e afirmam, e de fato, o Nomocanon de Fótios.


Cânones.

1.                  Este santo Concílio ecumênico e decretou que, até agora ao que diz respeito a qualquer clérigo, leigo, ou bispos da Itália que estão na Ásia, na Europa ou na África, sob vínculo, ou em deposição, ou anátema imposto pelo santíssimo Papa João, todas essas pessoas receberam na mesma condição de penalização também pelo Santíssimo Patriarca de Constantinopla Fótios. Isto é, que seja deposto, ou anatematizado, ou excomungados. Todas as pessoas, por outro lado, a quem Fótios nosso Patriarca santíssimo condenou ou pode condenar à excomunhão, ou à deposição, ou anatematização, em qualquer diocese que seja, clérigos ou leigos, ou qualquer das pessoas que estão na categoria prelatícia ou sacerdotal, devem ser tratados da mesma forma pelo Santíssimo Papa João, e sua Santa Igreja de Deus dos Romanos, e estarão na mesma categoria de penalização. Nada, no entanto, deve afetar as prioridades devido ao sacratíssimo trono da Igreja dos Romanos, nem deverá nada redundar o detrimento de seu presidente, como tocar a soma total das inovações, seja agora ou em qualquer momento daqui em diante.


(Cân. Ap. cc XII, XIII, XXXII;. C. VI de Antioquia; c. XIV de Sardica,.. Cc XI, XXXVII, CXLI).


Interpretação.
A fim de trazer um fim pacífico a muitos escândalos e dissidências que tinham surgido naquela época entre a Igreja do Oriente e do Ocidente, como entre os Papas Nicolau e Adriano de Roma e o Patriarca Fótios de Constantinopla, pela causa primária do que tinha sido a província da Bulgária, como já dissemos, o presente Cânon deste Concílio decreta que todos os clérigos e leigos e bispos que foram excomungados ou depostos ou anatematizados pelo Papa João de Roma, estejam eles localizados na Europa ou na Ásia ou na África , devem serem excomungados e depostos e anatematizados também pelo Patriarca Fótios de Constantinopla. E, inversamente, todas as pessoas, que têm sido excomungadas ou depostas ou anatematizados em qualquer região da terra pelo Patriarca de Constantinopla, devem serem excomungados, depostos e anatematizados também pelo Papa de Roma, sem os privilégios da Igreja do Romanos, e do Papa neles afetarem negativamente, agora ou no futuro, este significado, isto é, que o Papa é para ser o primeiro na ordem de honra com relação aos outros quatro Patriarcas. No entanto, essas coisas foram feitas naquela época, quando a Igreja dos Romanos não tinha nem escorregado na Fé, nem tinha qualquer desavença com nós Gregos. Mas agora nós não temos união ou comunhão com ela, por conta dos dogmas heréticos que a ela se anexou. Veja também Cân. Ap. c. XXXII.

2. Embora até então alguns bispos tendo descido para o hábito dos monges, tendo sido forçados a permanecer na altura da prelazia, têm sido ignorados quando o fizeram. Mas, com isto em mente, este santo e ecumênico Concílio, com vista a regulamentar esse descuido, e reajustar essa prática irregular aos estatutos eclesiásticos, decretou que, se algum bispo ou qualquer outra pessoa com um escritório prelatício esteve desejoso de descer à vida monástica e repreencheu na região de penitência e de acese, deixe-os pois ele não valoriza qualquer pretensão à dignidade prelatícia. Para os monges de condição de subordinação representarem a relação de observador, e não de professor ou de presidência; nem comprometem-se a pastorearem a outros, mas devem se contentarem em serem pastoreados. Portanto, de acordo com o que foi dito anteriormente, nós decretamos que nenhum daqueles que estão na lista prelatícia e estejam inscritos como pastores devem-se a rebaixarem ao nível de pastoreados e arrependidos. Se alguém se atreve a fazê-lo, após a entrega e desiguinação da decisão que vem sendo pronunciada, tendo ele privado de seu posto prelatício, deverá não mais ter o direito de regressar ao seu antigo estado, que por ações ele tem viciado.

Interpretação.
O Presente Canon proíbe bispos e pastores descerem da alta dignidade prelatícia e ofício ao hábito dos monges (assim como eles também estão proibidos a renunciarem a sua província, com exceção apenas por conta de crimes canônicos que eles têm a seu descrédito , impedindo-os de estarem nas ordens sagradas, e confessadas por eles a seus pais espirituais. Para renunciar antes, eles teriam sido habilitados a descerem ao posto dos monges). Mas se alguém se atreve a fazê-lo, depois de tomar essa decisão, que ele não possa de qualquer forma manter o alto cargo da prelazia, ou executar qualquer função prelatícia; para o primeiro de todos os acordos a que os monges entram em conexão com o hábito são acordos de subordinação social, ou obediência (ou discipulado), e de arrependimento (ou penitência), mas não de autoridade e de mestrado e de uma vida fundamentada na irrepreensibilidade, que são os méritos do cargo de bispo . Essas coisas, sendo contrárias uma a outra, não podem serem encontradas unidas na mesma situação. Em segundo lugar, o fato de que os monges se privaram da categoria de prelazia, e por isso não é possível a eles recuperarem de novo o que eles perderam por atos ou obras reais. Não obstante o que até então alguns bispos têm cometido essa impropriedade, a partir de agora, entretanto, e doravante não deixe que isso seja feito.


3. Se qualquer leigo, depois de se tornar um homem de autoridade, e conceber um desprezo por injunções divina e imperial, e rindo com escárnio dos estatutos e leis da Igreja, se atreve a atacar a qualquer bispo, ou a prender um, sem razão ou causa , ou por um motivo ou causa fictícia, que o tal esteja em anátema. (Cân. Ap. LV).


Interpretação.

O mundo nunca foi livre de males. Assim, o parecer do sábio é verdade quando diz que a maioria dos homens são maus. Pois aqui, eis que você pode ver por si mesmo a prova disso no fato de que em tempos mais antigos bispos foram espancados e presos por leigos. O que é um ultraje! É por isso que o presente Cânon manda que um leigo seja anatematizado, se depois de receber autoridade e poder, ou depois de se tornar a causa de sua própria morte (ou psíquica) mental (para a palavra grega, diz o autor, que aqui é traduzida ao português como "um homem de autoridade", também significa "auto-assassino", ou aquele que é normalmente chamado de suicída em português), ele deve mostrar desprezo pela ordem imperial e os comandos, ao mesmo tempo rir em desprezo tanto das tradições não escritas e as leis escritas da Igreja, e se atrevem (para ele é verdadeiramente um pedaço enorme de ousadia e audácia para qualquer um atingir qualquer bispo) a atacar um bispo (ou, mais explicitamente, não apenas o bispo, com o artigo definido, isto é , o personagem notável e oficial, mas mesmo o mais humilde, mais pobre e, casual bispo), ou colocá-lo na prisão, ou sem justa causa ou em uma falsa acusação que ele próprio tem forjado. Mas o que é um anátema? Veja o Prolegomena do Concílio realizado em Gangra. Leia também Cân. Ap. LV.

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Sacerdote ortodoxo e busco interessados na Santa Fé, sem comprometimentos com as heresias colocadas por aqueles que não a compreendem perfeitamente ou o fazem com má intenção. Sou um sacerdote membro da Genuina Igreja Ortodoxa da Grecia, buscamos guardar a Santa Tradição e os Santos Canones inclusive dos Santos Concílios que anatematizam a mudança de calendário e aqueles que os seguem, como o Concílio de Nicéia que define o Menaion e o Pascalion e os Concílios Pan Ortodoxos de 1583, 1587, 1593 e 1848. Conheça a Santa Igreja neste humilde blog, mas rico no conteúdo do Magistério da Santa Igreja. "bem-aventurado sois quando vos insultarem e perseguirem e mentindo disserem todo gênero de calúnias contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos pois será grande a vossa recompensa no Reino dos Céus." "Pregue a Verdade quer agrade quer desagrade. Se busca agradar a Deus és servo de Deus, mas se buscas agradar aos homens és servo dos homens." S. Paulo. padrepedroelucia@gmail.com